Apropriação cultural é um problema do sistema, não de indivíduos

Durante muito tempo, o samba foi criminalizado, tido como coisa de “preto favelado”, mas, a partir do momento que se percebe a possibilidade de lucro, o capitalista coloca o branco como a nova cara do samba, esvazia de sentido uma cultura com o propósito de mercantilização ao mesmo tempo em que exclui e invisibiliza quem produz. Falar sobre apropriação cultural significa apontar uma questão que envolve um apagamento de quem sempre foi inferiorizado e vê sua cultura ganhando proporções maiores, mas com outro protagonista.

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Uma coisa é a troca, o intercâmbio de culturas, o que é muito positivo. Outra coisa é a apropriação. No nosso país, as culturas foram hierarquizadas, sendo a negra colocada como inferior, exótica. Enquanto terreiros são invadidos, há marcas que acham cult colocar modelos brancas representando Iemanjá. Dentro desse contexto é possível falar em troca? A troca só é possível quando não existem hierarquias.

Isso não significa culpabilizar os indivíduos que estão inseridos dentro dessa lógica. Muitas dessas pessoas desconhecem a discussão sobre apropriação cultural. Não se pode responsabilizar somente os sujeitos, estamos falando de um problema estrutural. A crítica deve ser feitas às indústrias que lucram com isso. É necessário, sim, se problematizar essas questões, mas tendo em mente que vivemos numa sociedade capitalista e nesta, tudo vira mercadoria.

Leia o texto completo de Djamila Ribeiro em AzMina

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Vogue lança a campanha mais capacitista do século

Esta será uma semana de grandes aprendizados para muitos profissionais do mercado de comunicação. A revista Vogue acaba de apresentar ao mundo a maior campanha capacitista já publicada no século XXI.

Vogue lanca campanha capacitista - ESTADO LAICS

Com a suposta intenção de apoiar os jogos paralímpicos, a Agência Africa Photoshopou o corpo de artistas globais com as características corporais de dois paratletas (!!!), em um discurso que os apaga completamente como indivíduos: “Queremos nos apropriar da sua causa, mas não queremos mostrar seu rosto.”

Eles também lançaram uma hashtag que começa com um infeliz “somos todos”, uma fórmula já velha e já intensamente criticada pelo apagamento de causas individuais que merecem atenção, resolução e respeito. Não somos todos paralímpicos – e nem precisamos ser para valorizar quem o seja.

Agências especializadas em modelos com alguma deficiência propõe inclusão REAL no mercado da moda. Acima do lucro, possuem interesses em promover mensagens de superação, liberdade, respeito e evolução social.

A superficialidade, o descaso e a completa falta de conexão com a realidade da Vogue/Africa não nos surpreendem, mas não podemos deixar de apontar a responsabilidade dos veículos de comunicação na disseminação de preconceitos e na sistemática exclusão de minorias.

Leia na íntegra os textos de Adriana Dias, Think Olga e Mistura Urbana

O racismo é um problema dos brancos!

O racismo não é um problema de pessoas negras – apesar de pessoas negras poderem reproduzir ideias do racismo, já que todos vivemos em uma sociedade que nos diz que devemos nos parecer com o “vencedor” para conseguirmos vencer também -, mas de pessoas brancas. Quem atravessa a rua somos nós. Quem não contrata somos nós. Quem não se relaciona somos nós. Quem acha que vivemos em uma democracia racial somos nós. Quem tem o poder na mão e, historicamente, sempre o teve somos nós. Nós, os brancos.

A verdade é que a gente precisa falar sobre racismo. A gente precisa ouvir o que pessoas negras dizem sobre o que é ser negra e aí comparar com as nossas vivências de pessoas brancas. Enquanto 72% das pessoas negras tendem a ler, participar de discussões e compartilhar conteúdos sobre raça nas redes sociais, 67% das pessoas brancas dizem que não se envolvem nesse tipo de discussão. Esse é o resultado de uma pesquisa do Pew Research Center com americanos.

O racismo e um problema dos brancos - ESTADO LAICS

Cada pessoa branca que luta contra o racismo pode atingir diversas outras pessoas brancas. E apenas quando somos atingidos por um assunto tão incômodo é que conseguimos olhar para as nossas atitudes, que muitas vezes nem diagnosticamos como racistas. Ouvir as pessoas negras é o ideal, mas enquanto não chegamos a esse momento, cada pessoa pode fazer sua parte para amplificar a voz do movimento negro.

Uma coisa importante a ser lembrada é que apesar de pessoas brancas serem importantes na transformação social e no fim do racismo, essa conversa não é sobre nós. Não importa como eu, branca, me sinto em relação ao racismo, mas o que pessoas negras, que o sofrem, se sentem. Não adianta nada eu falar sobre como uma mulher negra se sente, por exemplo, então eu posso convidar uma mulher negra para ocupar esse espaço. Se nenhuma mulher negra puder, o que é praticamente impossível, eu posso disseminar o discurso dela. O mais importante é não querer holofotes e palmas.

Leia o texto completo de Carol Patrocinio em ONDDA

As Olimpíadas do Sexismo

A cobertura midiática sexista dos Jogos Olímpicos tem sido tão marcante, que poderia figurar sozinha como uma modalidade própria. Então, por que não dar toda a atenção merecida e tratá-la propriamente como um esporte?

Rio2016 Olimpiadas do Sexismo

Seja Adam Kreek na CBC desmerecendo a tenista canadense Eugenie Bouchard como concorrente porque ela posta selfies com creme dental, ou seja na NBC com Dan Hicks atribuindo a quebra do recorde mundial da húngara Katinka Hosszú ao seu marido, não houve escassez de comentários sexistas vergonhosos durante os Jogos Olímpicos Rio 2016. E não vamos esquecer dos debates fascinantes sobre as supostas próteses mamárias da saltadora australiana Michelle Jenneke, debates racistas sobre os cabelos de Gabby Douglas, e ainda um novo segmento de islamofobia que aborda o exotismo das hijabs.

Se servir de consolo, a péssima cobertura sexista dos jogos olímpicos deste ano não é uma exceção. Segundo um estudo recente que analisou mais de 160 milhões palavras do jargão esportivo, as atletas mulheres estão mais propensas a serem infantilizadas e chamadas de “meninas” que os homens de “meninos”.

Mas o que podemos esperar quando 90% dos jornalistas esportivos são homens e brancos. É como se as mulheres não estivessem assistindo. Esta repercussão sexista talvez seja o incentivo que algumas redações precisem para deixar as mulheres comandarem o show futuramente.

(via Vox e Empodere duas mulheres)

Transar: o pecado de Ingrid

É necessária uma regressão para entender o porquê a “escapulida” — como foi chamado o caso da saltadora Ingrid Oliveira — provocou tanta fúria em seus compatriotas.

Às vésperas do grande salto, a nadadora resolve levar um outro atleta para o quarto. Chega para a colega de saltos ornamentais, com quem andava meio desentendida, e pede: — Amiga, você pode dormir em outro quarto? Ela bate boca, é dedurada para o Comitê Olímpico e a eliminação — para lá de óbvia — passa a ser inaceitável. Ingrid deu e não pode ser perdoada por isso. Aqueles que a desejaram agora passam a humilhá-la publicamente.

Transar o pecado de Ingrid

Ingrid não foi para o quarto sozinha. E o tal muso que a acompanhou? Sua participação na Olimpíada, como a dela, também não havia acabado. Classificado, ele tem dois troféus: a vitória e Ingrid. Eliminada, ela tem a dupla derrota: o vexame esportivo e o sexual. Como se transar fosse um vexame. Todos deveriam fazer como Ingrid. A vida é para ser gozada quando bem entendermos. E o momento cabe a nós, somente a nós.

Leia o texto completo de Gabriel Barreira

Ginastas das Coreias do Sul e do Norte tiram selfie juntas

Se tecnicamente a Coreia do Norte e a Coreia do Sul estão em guerra e constante estado de tensão, há quilômetros de distância, nos Jogos Olímpicos Rio-2016, duas ginastas representantes dos países são o símbolo de uma trégua. Unidas desde antes do início dos Jogos, as atletas que treinam sempre juntas e discretas registraram a amizade numa selfie que logo povoou as redes.

Ginastas das Coreias do Sul e do Norte tiram selfie juntas

Quem fez o registro foi a pequena sul coreana Lee Eun-jo, de 17 anos, dez a menos que a nova amiga da parte Norte Hong Un Jong. As duas costumam treinar no Parque dos Atletas e dividem os aparelhos da ginástica artística. Ambas estão num mesmo grupo misto de treino montado para as atletas que disputam o individual.

O conflito entre os dois países remonta à Guerra da Coreia, entre 1950 e 1953. A Coreia do Norte, comunista, era liderada pela extinta União Soviética. A Coreia do Sul, capitalista, pelos Estados Unidos. A guerra não foi encerrada por um tratado de paz, mas por um armistício, que a Coreia do Norte afirmou ter cancelado em 2013, prometendo retaliação militar “impiedosa” contra os inimigos. No último sábado, a KCNA, agência oficial de notícias da Coreia do Norte, informou que o país enviou uma delegação política de alto nível para acompanhar os Jogos.

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Trans usa vestido com bandeiras de 72 países onde ser gay é crime

Valentijn de Hingh, modelo transexual holandesa de 26 anos, mandou um recado impactante nesta semana para o mundo todo: ser gay é crime em 72 países, sendo que em diversos deles isso pode levar a prisão ou pena de morte. A mensagem está no clique do fotógrafo Pieter Henke, no qual ela usa um vestido do estilista Mattijs van Bergen feito com as bandeiras destes 72 países.

Valentijn de Hingh na EuroPride

A foto foi tirada durante o EuroPride, que promove a visibilidade da comunidade LGBT desde 1992, no Museu Rijksmuseum, em Amesterdão. Nesta edição de 2016, Valentijn se tornou a primeira embaixadora transgênero do evento.

Na foto postada no seu Instagram, ela disse que “Todo país que mudar sua legislação, vai ter a sua bandeira substituída por uma bandeira do arco-íris. Vamos esperar que este vestido, mais cedo ou mais tarde, seja feito apenas por uma colcha de retalhos bem colorida”.

Via Catraca Livre

‘O Racismo não está piorando, está sendo filmado’

Em entrevista à Stephen Colbert, no talk-show Late Show, o ator Will Smith falou sobre racismo, ainda muito presente, mesmo em Hollywood.

“O racismo claramente não é pior do que nos anos 60, você sabe, e, consequentemente, não tão ruim quanto em 1860. Nós estamos discutindo sobre raça nesse pais mais abertamente e claramente do que nunca foi feito anteriormente na história desse país (…) O racismo não está piorando, está sendo filmado”, disse ele do seu ponto de vista como astro internacional.

O racismo não está piorando, está sendo filmado

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APARTHEID BRASILEIRO: Governo Temer adota comitê de pureza racial

Reedição constrangedora de práticas nazistas e do regime racista do Apartheid da África do Sul, o governo golpista de Michel Temer avançou definitivamente o sinal, atropelando os direitos humanos da comunidade afrodescendente. A Orientação Normativa nº 3, de 1º de agosto de 2016, publicada nesta terça-feira, 2 de agosto, no “Diário Oficial da União”, prevê a formação de comissão designada para a verificação da veracidade da autodeclaração de negritude.

APARTHEID BRASILEIRO

Uma das ações afirmativas da presidenta Dilma Roussef foi a adoção de cotas em concursos públicos, que instituiu um mínimo de 20% das vagas a negros e pardos. Para ser incluído bastava a autodeclaração. Agora o candidato terá de expor seu corpo presencialmente ao Tribunal da Verdade Racial para que ele seja escrutinado se é moreno o suficiente, preto o suficiente. Crespo o suficiente.

Esse modus operandi é bem conhecido do movimento negro internacional. A primeira grande legislação do regime do Apartheid na África do Sul foi a Lei de Registro Populacional, de 1950. Isso fez com que, em uma mesma família, se registrassem casos de separações por raças distintas.

Segundo o governo trata-se de evitar fraudes. Na verdade, visa apenas constranger uma parcela imensa da população brasileira que, nos últimos anos, orgulhosamente vinha reconhecendo sua origem negra, ou indígena, em vez de escondê-la sob um falso e hipócrita embranquecimento, tal como sempre quiseram os adeptos brasileiros das teses eugenistas e da supremacia branca e européia.

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Homofobia é o verdadeiro monstro de Stranger Things

Stranger Things não é só uma série em homenagem à cultura pop dos anos 80, é também uma alegoria da AIDS naquela década. Toda a história se passa em 1983, ano em que o vírus do HIV foi isolado. Muito além dos acontecimentos sobrenaturais, a homofobia é o principal inimigo a ser enfrentado.

Homofobia e o verdadeiro monstro de Stranger Things

Quase todos os episódios contém insultos ou intimidações a personagens que ultrapassam as barreiras da heteronormatividade. Expressões de ódio e preconceito como “Pervertido”, “fada”, “estranho” e “esquisito” soam imediatamente familiar para o público LGBT.

Em tom moralista, os personagens que não estão associados a relações heterossexuais estáveis são as principais vítimas do “mundo invertido”, uma versão escura, fria e sem vida do mundo real, e uma potente metáfora para o “armário”.

A primeira vítima é o menino chamado de gay pelos colegas. Em seu funeral chega-se a supor que foi sequestrado por pedófilos. Onze, a personagem principal, também possui uma identidade de gênero fora dos padrões. Inicialmente aparece com o cabelo raspado e é repetidamente confundida com um menino. Para transitar em sociedade precisa usar peruca, maquiagem e vestido rosa, e só então é considerada bela.

Depois vem a garota que reprime a relação heterossexual da amiga. Amiga essa que quase vira mais uma vítima coincidentemente quando ensaia uma troca de parceiro.

Homofobia e o verdadeiro monstro de Stranger Things

O Monstro é atraído justamente pelo sangue, meio de transmissão do HIV; Surge em laboratório, assim como afirmam algumas teorias sobre a origem do vírus; E, para completar, é um “inimigo sem rosto”, um dos apelidos da AIDS até hoje.

A estética de Stranger Things é claramente inspirada no passado, mas o ódio e o preconceito implícitos são bastante reais para os jovens da atualidade. Basta sintonizar em qualquer debate político para ver verdadeiros monstros em ação.

(Via Advocate e Felipe Lavignatti)